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domingo, 1 de março de 2009

Esticando as férias ao máximo!


As férias acabaram!

Se eu não soubesse o que me aguarda nesta segunda-feira no trabalho, eu não ficaria tão triste. E, por isso, estou tentando esticá-las ao máximo.

Passei o domingo na estrada de volta para casa, o dia todo. Chegando em Brasília, no final da tarde, liguei para um amigo, o Hebert.

-O que você vai fazer hoje a noite?

-Nada. Por quê?

-Me pega na rodoviária, vamos tomar um vinho?

Enganei bem, ele me pegou na rodoviária, passamos no shopping para comer e acabamos indo jogar sinuca com outro amigo, o Fred (que eu não via há 8 anos). Nós três no Área 51, um bar especializado em sinuca, ouvindo rock'n roll (década de 60 e 70) e tomando água mineral.

Água mineral, isso mesmo. Final de noite, final de festa, final de semana ou final de férias, tudo termina de forma muito estranha. Eles tinham que voltar dirigindo, eu não. Só que eu não sei jogar sinuca! Sou café-com-leite. Então ficamos ali, eles jogando e eu tentando acertar a bola na caçapa. E ainda lembrando de quando nos conhecemos na viagem mais trash que já fiz na vida e dando notícias dos amigos das antigas.

Fred pergunta: Cadê o Eric?

Eu: Casou.

Fred: ... (segundos de silêncio). É mesmo?
-E você casou com aquele...?

Eu: não. Ele casou com outra, tem uma filha e já separou.

Fred: ... (cara de espanto). É mesmo?

Eu: casei e separei, mas com outro. Você não conheceu.

A vida continua. Bem diferente daquela que tínhamos há oito anos quando eu, Eric e Du saímos de Palmas (TO) num feriadão de 7 de setembro rumo a Chapada dos Veadeiros (GO) sem ter a mínima idéia do que nos esperava pela frente.

Três mochilas cargueiros nas costas, uns 50 metros de corda para rapel, mosquetões, cadeirinhas, fitas, uma barraca, fogareiro portátil, saco de dormir, um pouco de granola, café, duas mudas de roupas e uma única toalha de banho para os três. Ou era isso ou os mosquetões. Conforto ou aventura? A vida é realmente uma questão de escolhas.

Nossa viagem já começou com o motorista esquecendo de parar em Alto Paraíso (GO). Ás 6h da manhã fomos largados na rodovia, a 80 km da cidade, para pegar carona de volta. Acabamos chegando em Alto Paraíso e, no embalo, na Vila São Jorge, portal de entrada do Parque Estadual da Chapada dos Veadeiros.

Foi no acampamento do velho Joe, em São Jorge, que conhecemos a família Martins. Eram 4 irmãos, 1 irmã, 1 namorada e 2 amigos de infância. O Fred um dos irmãos; o Hebert, o amigo de infância. A família Martins era o que havia de mais decente no camping, achamos melhor nos juntar a eles para nos protegermos. Nunca vi tanto porra-louca junto num mesmo local, São Jorge não tem policiamento. O povo faz a lei, linchamento. E éramos jovens de cidade pacata, eu estava chocada com a quantidade de brasilienses malucos no local.

Mas, foi uma das melhores viagens que já fiz. Tudo era novidade. Ninguém conhecia pessoas de Palmas, a capital do Estado mais novo da Federação, então ganhávamos carona para todo canto. A única refeição decente era o almoço, comíamos cachorro quente e espetinho à noite. O Eric aprendeu a beber catuaba selvagem com os Martins. O Du acordava cedo todo dia e nos arrastava para mais uma trilha. Conhecemos cachoeiras, águas termais, lojinhas e fizemos muitas bolhas nos pés.

A volta pra casa... essa foi de lascar. Compramos nossa passagem com antecedência, mas houve overbook e, depois de muita discussão, os motoristas acabaram cedendo duas poltronas para nos revezarmos durante a madrugada.

Mas, com os Martins foi pior. O ônibus de excusão que eles pagaram antecipado foi embora sem levar ninguém. Eles ficaram três dias acampados na varanda de um bar esperando dinheiro para voltar para casa.

Depois de oito anos quem é que tem disposição para uma aventura dessa de novo? Ainda bem que fiz isso antes dos 30, pois agora eu quero é cama e conforto. Mas, imagine lembrar de tudo isso tomando água mineral? Se eu tivesse tomado vinho, esse post não teria sido saído.

Definitivamente, já não sou mais a mesma.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Criando um Monstrinho


Eu tenho que dar uma satisfação aos leitores desse blog.

Passei o carnaval achando que estava com berne no pé e que teria pego na trilha que fiz no Tocantins para ver as incrições rupestres há três semanas. Depois de andar horas por uma trilha de deixar qualquer ser desesperado, tirei a bota apertada por 10 minutos para descansar. Então, fui picada no pé por um mosquitão.

Na semana seguinte, logo que cheguei na Bahia, no sábado, bem cedinho, passei na feira e comprei fumo de corda, seguindo a tradição popular. Botei no pé e tampei com bandagem por um dia. No final da tarde, depois da sofrida expremeção da mamãe, arranquei um berne do pé. Que nojo!

Queria ter cortado meu pé fora, se ele não me fosse útil. O Ulisses, de Brasília (DF), queria ver sangue e torcia pela decepação, já que eu não sou jogadora de futebol e nem escrevo com este membro (e ainda poderia concorrer nas vagas de deficiente físico nos concursos públicos).

Mas, havia outra ferida logo abaixo e eu sentia coceira. Passei mais fumo e nada. Passei na farmácia, no domingo, e comprei uma pomada multiuso (antiinflamatório, anti-bacteriana e analgésica) e nada. Fui no postinho de saúde, na segunda-feira, e o médico disse que eu teria que desinchar o pé primeiro para fazer uma incisão e ver se era realmente um berne, mas teria que fazer o procedimento cirúrgico em um hospital.

Se eu abrisse o pé, teria jogado o abadá fora e não pularia o carnaval com minha amiga Janaína. E de qualquer forma, hospital particular decente só na quinta-feira. Fui, como todos sabem, de pé inchado para a avenida, afinal ele não estava doendo. E ainda peguei gripe, me perdi dentro do bloco e fiz amigos na enfermaria e no camarote dos dodóis no trio elétrico.

Eu já estava até pegando amor pelo monstrinho no meu pé, eu dizia que em breve ia parir um berne. E todos me davam receitas malucas.

Minha prima zootecnista de Juazeiro (BA) dizia para eu passar éter, é o que os zootecnistas passam no gado. Ou então creolina. E que se o verme não desmaiasse, tentasse tocar fogo...

Ouvi mil conselhos de gordurinha de porco (toucinho) para atrair o bichano para o bacon. Outros diziam para pingar vela no respiradouro e tentar puxar pra fora. Ou gelo, água quente, álcool, fita crepe, urina etc. De qualquer forma, teria que passar pela situação nojenta e traumática (de novo) de puxar um corpo estranho com minhas próprias mãos. Achei melhor ir no médico, meus amigos estavam tentando me matar.

Hoje consegui ser atendida numa clínica com meu plano de saúde de Brasília, mas só por ser uma urgência. Tive que explicar que eu estava criando um monstro. Na Bahia não há casos de berne, isso é coisa dos Estados do Norte e Centro-Oeste.

-Berne??? O que é isso?

- Um verme gigante, cabeludo, nojento, que te devora por dentro.

O médico ficou curioso. Mandou dizer que ia me atender. Em 29 anos de profissão na Bahia só atendeu dois casos desses. Na primeira vez, ele retirou um bichano de 1,5 cm e quase saiu correndo assustado.

Sentei na maca e me prepararam para o pequeno procedimento cirúrgico. Achei melhor vigiar...

-Você quer mesmo assistir a este procedimento?

-Por que não?

-Acho melhor você deitar (com um olhar suspeito).

Imaginei cenas dos filmes de terror "A Mosca", "A Coisa" e os livros do Stephen King, então achei que realmente era melhor me deitar.

Ahá! Estão pensando que o meu berne já teria uns 5 cm, não é? Então vocês tinham que ter visto a cara de decepção do médico. Nada de bicho. Um pouco de pus e mais nada. Me cortaram a tôa.

Por via das dúvidas, me passou Ivermectina, Cefadroxil e continuar a Nimisulid receitada pelo médico do postinho. Ele acha que foi algum outro inseto que me picou e irritou a pele (viu, Ulisses?). Ufa!

O chato é ficar com o pé enfaixado em estado inicial de mumificação. Mas, quem pensa que eu iria gastar meus últimos dias de férias de molho em casa, se enganou novamente. Depois do almoço, fui descer o Rio de Ondas de bóia com um saco de lixo amarrado no pé.
Um cliente do meu cunhado acha que o verme me abandonou no carnaval durante a folia. Acho que nunca saberemos...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Ressaca de Carnaval


Eu sobrevivi!


E para não dizer que não peguei nada, peguei uma baita gripe neste Carnaval, estou com a garganta doendo e o nariz escorrendo. Entre mortos (um cara infartou e morreu ao lado do trio elétrico no encerramento da folia) e feridos (umas brigas de vez em quando), até que me sai bem, apenas com um pé inchado (e nem foi de cachaça) e a gripe.


Não tenho resistência alguma a chuva de madrugada, sono acumulado e overdose de axé music. Estou ficando velha, já não tenho pique para essas coisas de adolescente. Sobre aquela história de uma vez na vida e outra na morte: mais uma dessa e eu morro! Acho mais seguro voar de paramotor e dar uma de Indiana Jones do que pular seis dias de carnaval na Bahia.


Passei a última noite a base de energético e muita água de coco, já que estou tomando antiinflamatório e não posso beber alcóolicos. Fiquei na avenida até acabar oficialmente o Carnaval, pois Janaína partiria nesta manhã e queria aproveitar até o último momento.


Pena que o encontro dos trios em frente aos camarotes vips não foi como o esperado, nada de misturar os blocos e cantarem juntos a mesma canção. Mas, deu pra ver o sol nascer e assistir, literalmente de camarote, a polícia militar prendendo os encrequeiros de plantão. De cima, com vista privilegiada, tínhamos o panorama de todas as brigas de rua, as discussões de casais, a polícia levando gente e mais gente para o posto policial. Parece que como era último dia, os malandros da cidade que não brigaram, queriam brigar tudo de uma vez. A polícia levava dois, logo atrás vinha outra briga. Só não vi briga de mulher, isso é até engraçado de ver, pois é mais briga verbal (palavrões) e puxões de cabelo. Ganha quem arrancar mais tufos e rasgar melhor a roupa da outra.


A revista corporal para entrar no circuito da folia, o uso de detectores de metais, o policiamento ostensivo e a boa distribuição do público fez com que esse carnaval fosse bem tranquilo em relação aos anos anteriores.


Poxa, esqueci de me despedir da minhas amigas Su e Ju, as enfermeiras do bloco de carnaval que me atenderam todos os dias. Elas foram um amor com todos, atendiam os bêbados com a maior solicitude, até os que iam lá só para encher o saco. Descobri que além de mim, houve mais dois indivíduos que passavam umas duas vezes por noite por lá para usar o spray antiinflamatório. Pena que não nos encontramos para trocar telefones de fisioterapeutas.


Bem, não encontrei a Dalila e não beijei ninguém no bloco. Confesso que fui desanimando no meio da reta, ainda mais depois que fiquei perdida das amigas e da mamãe por uns 30 minutos. Que garota de 28 anos vai pular em bloco com a própria mãe? Só eu, é claro. E ainda se perde...


Bem, amanhã, quinta-feira pós carvanal, já poderei ir ao hospital levar meu pé para passear. Afinal, nesta quarta-feira de cinzas os hospitais devem estar cheios de cachaceiros tomando glicose na veia e médicos mau-humorados de ressaca.
Eu que não vou arriscar entrar com um pé ruim e sair com o sexo mudado...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Carnaval - Pulando no Bloco

Acho que devo uma garrafa de Whisky para o meu cunhado... Já que cerveja me embrulha o estômago. Somando isso com muita água de coco, estou até aprendendo a dançar axé.

Eu ia me enfurnar na chácara da mamãe, na beira do rio, mas usaram meu argumento preferido "Você tem que experimentar isso pelo menos uma vez na vida". Então lá se foi eu e minha amiga Janaína (ela mais animada do que eu, depois eu mais animada do que ela, em seguida ela mais animada de novo) pular o carnaval num bloco de trio elétrico.

Aquele verso de marchinha "Só não vai atrás do trio elétrico quem já morreu" é a mais pura verdade. No nosso bloco tinha cadeirante e uma mulher de aparador com rodinhas. Eles percorriam toda a extensão da corda mais animados do que nós. Era mais perigoso eles nos atropelarem do que qualquer um machucá-los.

Eu com meu pé inchado (literalmente), fiz até amizade com as enfermeiras do posto de plantão no carro de apoio. Ia duas vezes por noite lá aplicar um antiinflamatório em spray. E cada tipo que aparecia na enfermaria... Até agora não entendi porque um rapaz queria tanto enfaixar o braço se não tinha nada nele.

E quando eu não aguentava mais caminhar, era só subir no camarote do trio e apreciar a vista. O local já estava parecendo carro de apoio dos dodóis. Lá em cima conheci uma loirinha com o dedão enfaixado que sem querer jogou cerveja em mim... Ficamos amigas depois.

A estrutura do bloco é muito boa, no carro de apoio tem bar (muitas vezes com bebida mais barata), camarote, enfermaria e banheiros. No meio dos foliões vão os coordenadores do circuito e uma fila de seguranças para manter a ordem e impedir que pessoas que não fazem parte do bloco passem para dentro da corda.

Minha amiga Janaína merece o diploma de Jardineira (para quem não beijou ninguém), apesar do terrorismo da minha irmã, o bloco era muito tranquilo; ninguém saiu correndo, nos cercando e agarrando a força. Haviam muitos casais, mas os solteiros estavam até comportados, era só ignorar as tentativas e tudo seguia tranquilo.
Cansei de procurar a "Dalila" (Ivete Sangalo) e ouvir Janaína dizendo que queria "Beijar na Boca" (Cláudia Leite), os ritz desse carnaval. Já não somos adolescentes, acho que devemos ter cara de senhoras respeitosas (?!!) e entramos na categorias dos não-beijáveis na boca (crianças, velhinhos, bêbados, feios, desdentados, eu e Janaína)...

Criatividade é o que não falta aos foliões, cada um incrementa, recorta e costura seu abadá no modelo que quiser. Tênis ou sandália rasteirinha são o ideal para percorrer dois quilômetros de avenida. Mas legal são os acessórios criativos: perucas coloridas, óculos gigantes, penteados malucos, capacete espaçonal, máscaras etc. Assim se paga mico e ninguém sabe depois quem é.

Não vi brigas de rua e nem consumo de drogas, só um ou outro caindo de vez em quando bêbado e uns ataques de mulheres ciumentas. Mas, todo o circuito foi fechado pela Prefeitura Municipal de Barreiras e as pessoas eram revistados na entrada ou passavam por detector de metais. A Patrulha policial no meio dos foliões também era frequente. Os que não pularam nos blocos, camarotes, sacadas de prédio e arquibancadas, acompanharam os trios da pipoca (sem bloco) que, por sinal, eram os mais animados.

E para terminar a noite e começar bem o dia, acabávamos o circuito num barzinho tomando caldo de qualquer coisa estranha (mocotó, sururu, vaca atolada etc) para depois desmaiar na cama, em casa.
Pular de noite e dormir de dia, isso é a vida por seis dias na Bahia nesta época de folia. E eu admiro aqueles que continuam a bebedeira, durante o dia, nos bares e nas margens do Rio de Ondas.


sábado, 21 de fevereiro de 2009

É só na Bahia...


Eu e Janaína na Bahia. Tem coisas que não me surpreendem mais, mas há outras que conto e as pessoas acham que é piada. E como para minha amiga Janaína tudo aqui é novidade, resolvi calibrar minha capacidade de assombro para contar o que se vê somente aqui na Bahia.

A mensagem é bem clara logo na divisa entre DF e BA: Sorria, você está na Bahia.

Nada de estress, não tenha pressa, leve tudo no bom humor e na alegria. O povo é animado, criativo, alegre, fala alto, bebe muito e faz uns contorcionismos na dança além da nossa capacidade física.

Estou em Barreiras, no oeste do Estado, onde dizem que é o melhor carnaval de interior, onde mora minha família. Por mais que eu venha aqui umas duas ou três vezes por ano, não tinha notado que algumas coisas eram novidades para minha amiga.

Ela quase acreditou que o mendigo louco, sujo e esfarrapado era de verdade, e não um bem humorado professor de psicologia fantasiado. Ela achou engraçado, e um contra-senso, a Polícia Militar andar sisuda, em fila indiana, no meio dos foliões animados, sendo que os cordeiros (os caras que seguram as cordas do blocos) são os trabalhadores que mais se divertem no carnaval.


Ela nunca tinha visto tanta gente numa caminhoneta como a que passou, em frente a um bar badalado, com seis adultos amontoados na cabine. Ela também achou engraçado os rapazes bonitinhos passeando numa piscina improvisada com lona, em cima de uma caminhoneta, usando próteses de dentes tortos (afinal de contas, a finalidade era atrair ou espantar a mulherada?). Mas, deve ser porque ela ainda não viu o famigerado bloco das Negrinhas, onde os homens (assumidos ou não) saem vestidos de mulher.

Ela nunca tinha visto árvore plantada no meio da rua e nem o xampoo e hidratante de quiabo com mandioca para cabelo ruim (isso confesso, nem eu tinha visto). Mas, ficou encantada com os dançarinos bombados em cima do trio elétrico requebrando até o chão, no samba-axé, enquanto a mulherada gritava desvairada como num Clube de Mulheres.

E ficou chocada com a desleal concorrência feminina de barrigueira (microssaias e micro-shorts), pois as vestes sumárias praticamente só escondiam a barriga. Sem contar com a ginga sensual e desleal da mulher baiana. Mulheres do centro-oeste ficam no chinelo.

Mas, tudo isso aí ainda está dentro da normalidade. Até mesmo ir para a chácara e encontrar uma velhinha capengando, bêbada, na estrada. E dois dias depois voltar e encontrar a mesma velhinha, com a mesma roupa, só dois quilômetros mais perto. Talvez estivesse provando a qualidade da cachaça de cada boteco de beira de estrada até chegar em casa, vai saber.

O bom da Bahia, e qualidade do nordeste, é a boa recepção. Onde for, sempre será recebido como um verdadeiro turista. "Ei, bixinha, de onde tu vem?". "Vixi Maria, Nossa Senhora! Seje (sic) bem vinda!".

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

E o Uerê vôou...



Foi meu primeiro vôo fora de um avião.

Sentada em uma cadeirinha (selete), presa ao piloto e ambos suspensos a uma vela de parapente, ligamos o motor. A capacidade é de 16 litros, autonomia de 5 horas, mas o combustível nos daria apenas 20 minutos de alegria. Do alto da Serra do Lajeado, em Palmas (TO), fiz meu primeiro vôo radical num paramotor, parapente com motor.

Levei dois anos para tomar coragem e uma semana enchendo o saco do instrutor de vôo, Eli Ramos, 37 anos, arquiteto e amigo de longa data. O cara quebrou o recorde de altitude com paramotor, chegou a 4.416 metros e ficou em 2º lugar num desses Campeonatos de Manobras (o cara mais alto na foto). Eu queria voar enquanto todo mundo morria de medo das manobras do "louco" Eli.

Mas, ao contrário da mulherada eu queria experimentar a sensação dessas manobras no ar.

A senha era "Uerê vai voar", frase do personagem indígena Uerê, interpretado pelo então ator mirim, Pedro Gabriel, na novela global O Rei do Gado, em 1996. O indiozinho repetia essa frase constantemente quando soube que ia viajar de avião pela primeira vez.

Era só o Eli atender o celular para eu dizer "Uerê vai voaaaaaar!". Mas, havia um grande problema, o equipamento duplo, que permite duas pessoas voarem juntas, estava na revisão. E eu ia embora na segunda-feira, ora pois!

Mas o equipamento chegou no sábado e o Eli me deu apenas 15 minutos para ficar pronta, chamar a Rafaela, arrumar menino (o Ian, filho de 6 anos da minha anfitriã) e uma mochila para sair correndo. Nem deu tempo de pensar em desistir, só fui cair na realidade quando cheguei lá em cima e olhei para a beira do precipício. Será que enlouqueci também?

De um monte de instruções a única coisa que realmente entendi foi "Quando eu disser corre, você corre". E não deu tempo de mais nada, pois meus pés saíram do chão e quando percebi já estava no ar voando com os periquitos.



(Vôo de parapente em Palmas (TO), Serra do Lajeado. Foto: Tairone Carneiro)


"Não parece que você está sonhando?", o Eli dizia sintetizando tudo. Eu, extasiada, só ria, gritava e dizia "De novo!". Duas manobras em espiral, o paramotor desce rodando a mais de mil metros do chão. Adrenalina, adrenalina, adrenalina!!! A sensação de queda é aliviada pela aceleração centrípeta. Me senti o leite na leiteira, sem tampa, que a gente girava só para não vê-lo cair.

Medo de cair de avião? Não dá tempo de pensar em nada, é muito rápido. Acho que também não deve dar tempo de sentir dor.

De lá de cima dá para ver as revoadas dos pássaros (que eu queria seguir), as grotas de água no paredão, as trilhas da Serra, os mirantes onde terminávamos as baladas na adolescência e Palmas plena na imensidão do Lago da UHE de Lajeado - Luís Eduardo Magalhães.

Lá da rampa de decolagem da Serra, só se via o Barbosa monitorando o vôo, a Rafaela filmando tudo no celular e o Ian jogando pedra, tentando acertar a gente...

O vídeo da minha decolagem (o grito é meu):



Eu posei, como disse o Eli, com a desenvoltura de uma jaca madura. Botei o pé no chão e ploft! E Como eu estava presa a ele, e o motor nele, viramos uma massa só. Só faltou a vela cair por cima para ficar mais bonito. Os quero-queros (ave) é que não gostaram muito, pousamos perto do ninho deles. Alguém já levou um rasante de um pássaro?

E por duas noite não consegui dormir direito, fiquei sonhando que estava no ar. Passando por cima das árvores, sentindo o vento, achando que era um passarinho num sonho.

Valeu, Eli! Foi bom demais!

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Subindo a Serra do Lajeado



Tentei reviver os tempos viris da adolescência neste sábado, mas as articulações e adiposidade já não são mais as mesmas.

Mas eu fui até o fim. Subi, desci e cumpri com o percurso. Fui fazer uma trilha com uns amigos para ver incrições rupestres no paredão da Serra do Lajeado, Tocantins. Estou toda esfolada, arranhada por capim-navalha, picada por mosquito e abelhas, salpicada de urtigas, cheia de roxos, pernas e dedãos doloridos e com as unhas detonadas.

Até parece que briguei com uma onça. A onça mesmo a gente não viu, mas a pegada dela estava bem marcada numa grota d'água. Suspeitamos que ela estava dentro de uma peguena gruta, pois ao entrar e acender a lanterna, ouvimos um rosnado. Por via das dúvidas, foi melhor não mexer.

Gastamos metade do nosso dia tentando encontrar uma forma de atravessar um precipício sem ter que descer muito e ter que subir tudo aquilo novamente. Claro que depois todo mundo queria me matar pela brilhante idéia de seguir a grota. Ainda mais depois de convencer o irredutível Indiana Gu (Gustavo) a mudar de rota.

Com uma bota de trilha emprestada, molhada pela chuva, insuportavelemente suada e ainda meio quilo mais magra pela doação de sangue aos mini e mega-mosquitos, chegamos ao paredão. Tivemos que seguí-lo até o ponto indicado no mapa. Viva o Google Map!

Em alguns pontos críticos tivemos que usar uma corda para descer. E foi numa dessas que me dei mal. Meu pé escorregou e dei com os peitos na parede. Mas, eu tenho airbag! Esfolei apenas barriga e braço. Mas, enquanto o Gustavo ajudava o César a descer pelo mesmo caminho, olhei para trás e não contive um ataque de gargalhadas. Nosso companheiro Tiago dava a volta tranquilamente em volta da pedra que estávamos transpondo. Como não havíamos visto o óbvio??? Mistérios que Indiana Gu nunca soube explicar.

O momento mais emocionante foi o em que o César levou um capote na beira da grota. Ele escorregou nas folhas úmidas, desceu a ribanceira rolando, quicou numa pedra, passou por cima de outra e ainda caiu sentado! Depois disso, pensamos seriamente em amarrar uma cordinha nele para não correr o risco de perdê-lo.
Encontramos as inscrições pré-históricas, são semelhantes às catalogadas em Goiás, mas elas estão ameaçadas pela ação da natureza (sol, chuva e erosão) e pela ação do homem (pixadores e depredadores). Sem um projeto de conservação e visitação monitorada, a única forma de proteção é o sigilo da localização e a dificuldade do acesso.

Haja coragem! Voltamos mais mortos do que vivos. Bambuzais fechados, capins que cortam ao passar, abelhas furiosas, eminência de peçonhentos, (o César quase pisou num escorpião negro), terreno altamente escorregadio e com muitas pedras soltas e a incerteza de estarmos na direção certa.

Um desafio pessoal que quando alcançado dá o maior orgulho de chegar todo fedidão e esfolado em casa.


Hoje vou dormir feliz!

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Espelho, espelho meu, existe alguém mais desastrado do que eu?

Hoje eu caí na entrada do prédio onde trabalho.

Foi uma daquelas quedas constrangedoras em que a gente se desequilibra e, desengonçadamente, se estatela de bunda no chão. Sorte que não quebrei o salto no piso molhado pela chuva.

Me senti a própria Teresinha de Jesus que "numa queda foi ao chão", mas ao invés de "três cavalheiros com chapéu na mão", veio um porteiro muito solícito. Depois de convencê-lo que estava tudo bem, consegui entrar com dignidade no elevador para depois, sozinha, poder dizer "Céus, que dor!". Mais um roxo para coleção, ao menos desse me lembrarei onde adquiri.

Mas esses fatos são tão comuns na minha vida que já não morro mais de vergonha. Aprendi que a dignidade humana é psicológica ou uma questão de costume.

No caso, eu já acostumei.

Um dia desses fui tirar o mp3 de dentro da bolsa no vagão do metrô. Eu, de pé. O homem, sentado na minha frente. Quando puxei o aparelho, um absorvente higiênico simplesmente caiu no colo dele. Ploft!

Ele olhou espantado para aquilo. Eu sorri naturalmente (sim, eu consegui) e ele me devolveu. O absorvente voltou para a bolsa e nós prosseguimos como se nada tivesse acontecido.

Mas, já fiz pior. Cantei musiquinha infantil para o meu chefe quando ele perguntou que verso era aquele que eu estava sugerindo para o cartão do Dia das Mães. Cantei "fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas, nas mãos que sabem ser generosas... Não se lembra???". E não fui demitida.

Já tropecei nos degraus de um shopping num primeiro encontro. Já fui pular alguém deitado, embaralhei as pernas e acertei o saco com o joelho. Já fiz meu ex brigar no supermercado por carrinho de compras que não era meu. Já tive dor de barriga na melhor parte do filme no cinema.

Minha meia calça 7/8 com silicone já desceu ao atravessar uma larga avenida. Também já vesti uma calça descosturada nos fundilhos e fui avisada por um gentil casal de velhinhos que gritou do outro lado da rua movimentada: " ei, moça, sua calça está rasgada!".

Eu adoro velhinhos, eles são tão solícitos (ironia).

Outra vez entrei no vagão do trem com o mp3 ligado e sentei. Então as pessoas começaram a olhar umas para as outras enquanto uma senhora idosa gritava e apontava para fora. Então vi meu guarda-chuva sorrindo para mim, em cima do banco, me dando adeus. Pulei do vagão na hora.

Já saí correndo, míope e efusiva, para cumprimentar vários amigos e descobri, quando cheguei lá, que não eram meus conhecidos. E ainda fiz cara de espanto.

Mas, hoje foi o fim. Escrevo agora na tranquilidade do meu lar, depois de duas taças de vinho e um carpaccio improvisado, para ter forças para contar.

Para chegar aqui tive que tirar a sandália na estação do metrô. O piso parecia pista de patinação, era impossível dar um passo sem o risco de fazer uma abertura de 180 graus. Me agarrei à parede, pedi ajuda à funcionária da limpeza, apoiei-me no ombro dela e arranquei dos pés, as sandálias super-fashion-caríssimas da Arezzo. Isso no horário de pico do metrô, no setor comercial e bancário sul, onde todos os dias passam centenas de executivos.

Ainda com dignidade, fui à catraca. Então, um dos seguranças do metrô me abordou há uns 3 mts de distância:

- Moça, no metrô não é permitido entrar sem sapato.

- Mas eu estou escorregando!

- Moça, você tem que calçar o sapato.

- É sério, moço! Eu já caí hoje e agora quase de novo, logo na entrada. Eu vou calçar, mas só quando eu estiver num lugar seco e seguro.

Eu entrei. Parei na escada rolante, sobre mil olhares, calcei minha sandália de salto alto, desci, apoiei-me na parede e arrisquei um passo. Depois de constatada a firmeza do chão, andei os cinco passos mais longos até a porta do vagão.

Eu sei que tem coisas piores, mas eu pergunto, há alguém mais desastrado do que eu???

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Natais e Reveillons Felizes


Até seria triste pensar que os melhores Natais e Reveillon que tive não foram com minha família, mas sim com um monte de desabrigados, expatriados e maiores abandonados em Palmas-TO. Ah, tempos bons e felizes aqueles. Quando não tínhamos grana, mas amigos solitários e solidários.

Era sempre assim, final de ano a cidade ficava deserta. Quem não podia visitar os parentes, ficava por lá. Então íamos juntando os maiores abandonados mais chegados. Era um mês de preparação, uma semana de organização e dois dias de farra.

Na falta de uma árvore, uma vez decoramos um cabideiro (de roupas) com luzes do Natal passado. Foi a árvore mais linda e cheia de presentes que já tivemos. Ela ficou carregada de presentes de amigo secreto chinês, presentinhos de R$1,99. E até mesmo os que tinham que cumprir o rito de passar com a família, deram um alô mais tarde.

Ainda bem que Nossa Turma era bem eclética. Só tínhamos que juntar a habilidade de cada um com nosso excesso de criatividade.

A Rafayellows era nossa cozinha-chefe. Maravilhas sofisticadas saíam daquelas mãos: risoto de maçã verde, pernil à pururuca, muffins etc. Na cozinha, era ela quem comandava. Com a lista de compras nas mãos, com os ingredientes mais baratos, lá íamos nós ao supermercado e à feira. O complemento da ceia era com frutas da estação. Castanhas, panetone, ameixas e pêssegos era um luxo muito raro na nossa mesa estudantil.

Ao menos posso me gabar do meu poder de barganha, que só não era maior do que o da mãe da Fá, a tia Du. Com R$10 era possível levar para casa melancia, banana, laranja, abacaxi e goiaba! Tia Du conseguia comprar até, vejam bem, dez abacaxis por R$1. Um dia chego lá.

A família Nascimento (Nita, Glês, Zeca e Nilson) sempre marcava presença depois da ceia com a família. Às vezes, largava os pais para ficar com a gente. Ô, família de boa vontade! Topava qualquer parada, até mesmo passar a virada do ano, debaixo de uma lona, na chuva, com frio, em cima da serra. De quem foi mesmo aquela idéia de jirico? Minha? Ops, foi mal... É que eu jurava que dava para ver bem melhor os fogos de artifício de lá de cima, mas 20 km realmente fazem diferença.

O amplificador-da-guitarra-do-primo-da-Alexandra era essencial para a festa. Juntando com o computador de alguém, tínhamos a programação da festa inteira, em mp3, com nossas bandas de rock favoritas. Nem vou me dar o trabalho de citar quais porque uma vez alguém colocou, de sacanagem,calypso no meio da programação.

Cada ano, a turma mudava um pouco. Uns iam embora, outros iam chegando, mas todos ajudavam na parte mais prazerosa da festa, a decoração: Claudinha, Fabion, Helve, Guguete, Tiago, Neto, Paulo, Tell.. (se eu esqueci alguém, e, com certeza, eu esqueci, grita aí nos comentários).

Jornal picado no chão era nossa marca registrada, descaradamente copiada de uma festa da turma de arquitetura da Unitins (Universidade Estadual do Tocantins). A vantagem: absorvia tudo o que derramávamos e derrubávamos no chão e quando a festa terminava, era só recolher tudo e ensacar, o chão nem precisava ser lustrado. Que eficiência!

Uma vez passamos dois dias capinando o mato do lote para ninguém se perder no percuso do portão até a casa. Daí, com a empolgação dos meninos, cortamos latinhas, enfiamos estopa e querosene e fizemos um caminho iluminado de tochas, uma trilha bem sinalizada até a festa. Parecia pista de pouso do aeroporto Brigadeiro Lysias Rodrigues. Porém, nossa alegria durou poucos minutos, o suficiente para ficarmos embabascados, com os copos nas mãos, olhando nossa obra de arte. O problema foi quando constatamos o cheiro da querosene impregnar tudo.

Qualquer idéia criativa era válida. Até mesmo obrigar a todos trazerem despertadores para o reveillon. Já que não tínhamos fogos de artífico, nosso barulho ia ser garantido de qualquer jeito. Foi legal, pena que até à 1h eles continuaram a tocar.

Outra vez alguém disse "vamos colocar as lentilhas dentro dos balões para estourar na virada do ano? Assim não precisamos ficar jogando lentilhas para cima!". Juro que não foi eu, mas também não me lembro de quem foi a idéia. Passamos a tarde enfiando lentilhas com um funil, enchendo balões no beiço (e quando estourava algum, era lentilha pra todo lado. E a gente ainda dizia "imagine como vai ser na hora !") e pregando no teto com fita durex.

Só sei que na hora da virada, nem ouvi os fogos ou sequer o ano passar. A única cena era a gente pulando, que nem uns doidos, tentando estourar os balões. O Paulo, mais esperto, arrumou um cabo de vassoura com uma ponta afiada e se divertia estourando os balões em cima da gente. E a guerra ficou estabelecida. Dessa vez tivemos que catar os jornais, varrer e limpar o chão. Poupamos as paredes.

Até que saia barato alegrar as festas com apenas um garrafão de vinho, pois como não tínhamos o hábito de beber, meio garrafão já dava sono e todo mundo ia dormir amontoado na sala (a cerveja veio depois). E o melhor, ninguém ia embora antes do almoço do dia seguinte. Sacudindo os bolsos atrás de moedas, saía um macarrão com resto de ceia... A gente era pobre, mas era FELIZ!