
É estranho falar de uma cultura quando não se sabe ao certo o quanto ela faz parte de você. Metade de mim é brasileira e a outra não. Mas não sei exatamente definir quais partes estão em quê. Costumo dizer às pessoas que esperam certas reações japonesas de mim, que aquilo ficou justamente nos 50% da raça que me falta. Mas me surpreendo quando observo um oriental e percebo que realmente que tenho algumas reações nipônicas, inevitavelmente, genéticas.

A voz levemente nasalada e estridente, o tom seco, os gestos contidos ou o andar meio quadrado e, às vezes, desengonçado. O cabelo liso de fios grossos que ficam espetados quando curtos ou escorridos quando repicados. A marcante falta de ritmo musical, a neurose em cumprir regras e avisos, a necessidade de ordem mesmo na assimetria. Devo ser uma das poucas pessoas no mundo que lêem mural e manual de instrução.
Os japoneses são tão peculiares que me faz acreditar que J. R. Tolkien se inspirou neles para criar os Hobbits em sua ficção literária. O hábito de trocar presentes e de guardar coisas velhas, as superstições mais absurdas, a obstinação em certas ações etc.
Mas meu cabelo mestiço tem fios que não se misturam, finos e grossos. Meu corpo tem curvas que as japonesas não têm, mas não são comparáveis às das brasileiras. Ser mestiço é complicado, é como ser um cão vira-lata, tem uns que prestam e outros que não, mas sempre tem alguém que gosta. Aqui, no Brasil, eu sou japonesa. Lá, no Japão, eu sou brasileira. Sorte minha esse país tropical ser racialmente diversificado.

Sei lá como meu avô conseguiu comprar uns hectares de terra no norte do Paraná, mas a família foi trabalhar no campo plantando hortaliças para abastecer supermercados e feiras da região. E foi assim que meu pai conheceu minha mãe, brasileiríssima. E assim eu nasci. E a casa encheu de gente para ver que bicho tinha dado porque japoneses não costumavam se misturar com outras raças.
Quando assisto uma manifestação cultural dos meus ancestrais nihondins (japoneses), é com

Fui educada até os quatro anos em um sistema japonês com minha obatchan (avó) e ela nem falava português. Mudar para o Estado da Bahia com meus pais na década de 80, quando os Campos Gerais do oeste baiano estavam sendo colonizados pelos sulistas, foi um enorme choque cultural. Além de sermos (eu e minhas irmãs) as únicas japonesinhas da escola, da rua e do bairro, havia palavras que só conhecíamos no idioma natal. Para agravar, puxávamos o R como os sulistas (imagine alguém falando japonês com sotaque do sul) e tínhamos hábitos diferentes dos baianos.
De repente, os outros não eram mais gaijins (não-japoneses), nós é que não éramos (intereiramente) brasileiros. A curiosidade era recíproca. Aprender a respeitar as diferenças e se adaptar a novas culturas foi nossa primeira lição.
Estudei nos hihongakos (escola de japonês) das associações Nipo-Brasileiras das cidades onde morei. Enquanto eu não conseguia pronunciar o hiroganá “tsu”, minha sensei (professora) não conseguia dizer as sílabas “tu”, “lá”, “fá” etc. E eu me sentia ridícula no final do ano por ter que cantar aquelas musiquinhas japonesas, que todos os brasileiros acham engraçadinhas, mas que hoje até me emocionam.

Mas, é engraçado observar como as culturas vão se integrando, seja na culinária (meu pai até come cheiro-verde, mas com shoyu) ou numa música israelita (com kimono na foto).
Hinoki é uma árvore japonesa, uma espécie de cipreste,

Ps: Praticamente no final do ano comerativo da Imigração Japonesa ao Brasil, resolvi falar sobre o assunto. Antes tarde do que nunca.